"Em 1958, porém, surgira na terra um rapaz de poucas falas. Não era devoto, nem adepto do Belenenses, nem gritava pelo Benfica, nem pelo Sporting. Lia o
República.Foi um abalo, na pacífica e democrática terrinha. Nem glórias de campeonatos, nem saber de seleccionados, nem conversa no barbeiro, nem leitura no Café Central... A democracia, golpeada, reagiu. E um bando de garotos, que já democraticamente se lesionava nos minidesafios de verdes contra vermelhos, recebeu de mão incógnita alguns escudos para apedrejar o marginal sem crença, sem leitura aprovada, sem clube, sem alma.
Serviram-no com todos!"
Pois, meus amigos, o autor deste texto, que considero fantástico, é
José Martins Garcia, que nasceu na Criação Velha em 1941 e faleceu em Ponta Delgada em 2002.
Foi publicado no "República" de 27 Outubro de 1973, e faz parte de uma antologia de "Crónica Jornalística no Século XX" que Fernando Venâncio compilou há poucos anos, a qual recomendo vivamente. É uma edição do "Círculo de Leitores".
De "Katafaraum Ressurecto" de José Martins Garcia, disse Carlos Câmara Leme:
"Pedrada no charco nalguma intelectualidade açoriana que, numa visão míope,só vê nas ilhas um lugar idílico de vulcões e paisagens".
E David Mourão-Ferreira, referindo-se a este escritor picaroto, afirmou em 1987:
"O seu nome deveria hoje ser saudado como o do escritor mais completo e mais complexo que no último decénio entre nós se revelou".
Pois é, José Martins Garcia.
O Pico não estará esquecido deste seu grande Valor?
Agradeço a todos os que tentaram descobrir o autor. Não era fácil.